Quando o corpo volta a brincar: alegria, espontaneidade e vitalidade na terapia corporal
Na terapia corporal neoreichiana e bioenergética, olhamos para a possibilidade de devolver a alegria pro corpo.
Mas calma aí, meu querido Jovem Místico Dourado. Isso não é discurso de positividade. Não estou falando que o “bom” é estar bem, nem desse lugar onde a gente precisa transformar tudo em luz, encontrar um aprendizado bonito em cada sofrimento ou achar que sentir tristeza, raiva, medo ou dor significa que alguma coisa deu errado.
Estou falando da alegria como uma possibilidade do corpo.
E isso, pra mim, é bem diferente.
Quando Alexander Lowen fala sobre alegria, prazer e vitalidade, ele não está falando de uma felicidade permanente. A questão está muito mais relacionada à capacidade de sentir a própria vida. Na Bioenergética, desenvolvida por Lowen a partir do trabalho de Wilhelm Reich, o corpo não aparece como uma coisa separada da nossa história emocional. Respiração, postura, musculatura, movimento, expressão e sensação fazem parte da maneira como nos organizamos diante da vida.
Reich foi um dos primeiros a olhar de maneira tão direta para essa relação entre o que acontece psiquicamente e a forma como isso se organiza no corpo. A ideia de couraça, que aparece no trabalho dele, fala justamente dessas defesas que não ficam somente “na cabeça”, mas também se expressam na musculatura, na respiração, na postura, no modo como a pessoa se movimenta e se relaciona.
E eu gosto de pensar que uma couraça não é simplesmente uma coisa ruim que precisa ser eliminada.
Ela foi uma proteção.
Em algum momento, aquele corpo precisou aprender a se contrair, segurar, controlar, não demonstrar, não ocupar espaço, não respirar tão profundamente, não sentir determinada coisa. Talvez tenha sido a melhor maneira que aquela pessoa encontrou para continuar existindo dentro das condições que tinha.
O problema é quando aquilo que um dia foi uma proteção passa a ser a única maneira possível de estar no mundo.
A pessoa continua se defendendo mesmo quando já não existe o perigo que deu origem àquela defesa.
E quanto mais o corpo está preso na defesa, no controle e na contenção, menos espaço existe para a espontaneidade.
É aí que eu acho que o brincar começa a ficar muito interessante dentro da terapia corporal.
Porque brincar exige alguma espontaneidade.
Brincar é poder experimentar sem precisar saber exatamente onde aquilo vai dar. É poder errar. Fazer diferente. Rir. Se movimentar. Ser um pouco ridículo. Criar. Inventar. Mudar de ideia. Fazer uma coisa que não tem necessariamente uma função produtiva. Se surpreender.
E isso não é pouca coisa para um adulto que passou boa parte da vida aprendendo a se controlar.
Às vezes, uma pessoa sabe muito bem como trabalhar, produzir, cuidar, resolver problemas, cumprir compromissos, atender expectativas e dar conta da vida, mas não sabe mais muito bem como brincar.
E quando eu falo de brincar aqui, não estou falando de transformar a terapia em uma atividade recreativa.
A brincadeira pode ser uma experiência corporal muito profunda de espontaneidade.
É um corpo experimentando: “eu posso fazer diferente e ainda assim continuar segura”.
“Eu posso errar e não ser punida.”
“Eu posso rir.”
“Eu posso ocupar espaço.”
“Eu posso não saber.”
“Eu posso me movimentar sem precisar controlar cada gesto.”
“Eu posso sentir prazer sem imediatamente precisar desconfiar dele.”
Por isso eu não vejo a brincadeira como o contrário de um processo terapêutico profundo. Muitas vezes ela é justamente uma experiência profunda de um corpo descobrindo que não precisa estar o tempo inteiro se protegendo.
José Angelo Gaiarsa, que também bebeu dessa tradição reichiana, trabalhou muito com a relação entre corpo, movimento, postura, comportamento e espontaneidade. Charles Kelley, criador do Radix, desenvolveu a partir de Reich uma abordagem experiencial que também coloca o corpo, a respiração, a sensação e a experiência presente no centro do processo. São caminhos diferentes, com suas próprias formulações, mas existe uma pergunta que atravessa essas abordagens e que continua me interessando muito: o que acontece quando a pessoa consegue sentir e experimentar o próprio corpo de uma maneira diferente daquela que aprendeu para sobreviver?
E aí eu volto para a alegria.
Porque um corpo vivo não sente somente alegria.
Ele sente raiva, medo, tristeza, desejo, vergonha, tesão, ternura, frustração, prazer, amor.
O objetivo da terapia não é transformar uma pessoa em alguém alegre.
Isso seria apenas outra forma de controle.
É ampliar a capacidade de sentir.
E, quando a capacidade de sentir aumenta, pode aumentar também a capacidade de sentir prazer, curiosidade, desejo, criatividade, humor e alegria.
Isso aparece muito no trabalho de Lowen, mas também vai ganhar outras formas em autores e práticas posteriores. Aneesha Dillon, por exemplo, desenvolveu o trabalho de Pulsation a partir de sua formação neorreichiana com Charles Kelley e de sua experiência com Osho, aproximando trabalho corporal, respiração, movimento, expressão emocional, meditação e Tantra. Eu não preciso concordar com todas as formulações dessas tradições para reconhecer a pergunta que elas colocam: será que o trabalho com o corpo também pode ser uma maneira de ampliar a nossa capacidade de celebrar, sentir prazer e estar presente na própria vida?
Pra mim, pode.
E isso não significa negar o sofrimento.
Uma pessoa pode estar atravessando uma dor enorme e ainda assim ter um momento de riso.
Pode estar triste e sentir prazer em uma música.
Pode estar vivendo um luto e sentir vontade de dançar.
Pode estar com raiva e, cinco minutos depois, se surpreender com alguma coisa engraçada.
O corpo humano não é linear.
A gente não precisa terminar de sofrer para começar a viver.
E talvez uma das coisas mais bonitas da terapia seja justamente criar espaço para que essas experiências possam coexistir.
Isso também me faz pensar muito sobre o lugar do terapeuta.
Porque, principalmente dentro de uma abordagem corporal, eu não acredito nesse terapeuta que precisa parecer uma pessoa sem corpo para ser profissional.
Reich trouxe uma crítica importante à posição excessivamente autoritária do terapeuta. A relação terapêutica não precisa ser construída a partir de um lugar em que o profissional senta no trono do saber e o paciente fica embaixo recebendo verdades sobre si.
Mas é muito mais fácil para o terapeuta sentar no trono do poder, não é mesmo?
Numa abordagem corporal, o terapeuta também é corpo.
A gente ri. Se emociona. Tem humor. Tem presença. Tem espontaneidade. Pode ser próximo. Pode ser humano.
E eu uso o tempo todo a observação do meu próprio corpo como parte da minha escuta. Perceber minha respiração, minhas tensões, meus impulsos, minhas mudanças de estado durante o encontro me ajuda a estar mais presente e a perceber o que está acontecendo naquela relação.
Isso não significa “ler energeticamente” a pessoa e achar que tudo que eu sinto é uma verdade sobre ela.
Significa reconhecer que o encontro terapêutico é vivo e que eu também participo dele com meu corpo.
E é justamente aí que a formação e a ética fazem toda diferença.
Porque ser humano não significa fazer qualquer coisa.
Ser espontâneo não significa agir por impulso.
Ser próximo não significa ser íntimo.
Ter carinho não significa transformar o vínculo em amizade.
Ter contato corporal não significa ter disponibilidade irrestrita do próprio corpo ou do corpo do outro.
E uma coisa é o terapeuta poder rir junto com a pessoa, brincar com uma experiência corporal, se emocionar com uma história, estar presente de verdade.
Outra coisa completamente diferente é perder o lugar profissional.
Por isso eu acho tão importante falar de formação, supervisão e responsabilidade.
Existe muita gente se intitulando terapeuta porque fez um curso, participou de uma vivência, teve experiências espirituais, trabalha com energia ou acumulou uma série de formações sem necessariamente ter construído uma prática clínica responsável.
E aqui eu falo com todo carinho e respeito, inclusive para o meu querido Jovem Místico Dourado: trabalhar com pessoas exige mais do que boas intenções e sensibilidade.
Exige estudo. Exige saber o que você está fazendo. Exige reconhecer o que você não sabe. Exige supervisão. Exige olhar para si mesmo.
Exige saber sustentar aquilo que aparece no encontro sem colocar o cliente para cuidar das nossas próprias questões.
E esse tema merece um texto inteiro, porque aí entram transferência, contratransferência e os afetos que aparecem na relação terapêutica. Não quero misturar tudo aqui, mas acho importante deixar registrado: a humanidade do terapeuta não é o abandono do enquadre. É justamente a capacidade de estar presente como pessoa sem deixar de sustentar a responsabilidade pelo lugar que ocupa.
No fim, é disso que eu gosto na terapia corporal.
Não de colocar o corpo para caber em uma ideia de quem ele deveria ser.
Não de ensinar alguém a ser positivo.
Não de transformar tudo em luz.
Não de fazer a pessoa controlar melhor aquilo que sente.
Mas de criar um espaço em que, aos poucos, ela possa respirar, sentir, se expressar, ocupar espaço, dizer não, dizer sim, sentir prazer, rir, brincar, sentir raiva, amar, descansar, desejar e voltar a descobrir a própria espontaneidade.
E talvez seja isso que eu entendo quando falo em devolver alegria pro corpo.
Não é fabricar alegria.
É criar condições para que ela possa aparecer.
Porque profundidade não precisa ser pesada.
Uma terapia pode ser muito séria sem precisar ser sisuda.
E uma pessoa pode estar profundamente comprometida com o próprio processo terapêutico e, ao mesmo tempo, rir, brincar, sentir prazer e se divertir.
Pra mim, isso também é um corpo vivo.
Um corpo que não precisa escolher entre profundidade e alegria.
Um corpo que pode sentir a vida inteira.
![Foto do escritor: Kamalinii [Kamã Corpo em Terapia]](https://static.wixstatic.com/media/7c0c01_da645cef2b2944f8a32c57e1c1fa7c11%7Emv2.jpg/v1/fill/w_32,h_32,al_c,q_80,enc_avif,quality_auto/7c0c01_da645cef2b2944f8a32c57e1c1fa7c11%7Emv2.jpg)

Comentários