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O capitalismo adoece o seu corpo.

11 de jan.
3 min de leitura

É todo um sistema desenhado para nos desconectar da vida real.


Mesmo depois da Era Pós-Pandemia, parece que todo mundo continua sem tempo

Sem tempo pra cozinhar, sem tempo para varrer o chão, sem tempo para cuidar de uma planta, tomar sol, caminhar devagar …

Sem tempo para existir.


Mas continua crescendo métodos para aumentar a produtividade.

O capitalismo descobriu o “life style” - a performance de saúde mental e física… então você acorda às 5h, cronometrado, e em tempos certos e rígidos você escreve em 5min, faz uma meditação em 10min,o "treino ta pago", e tudo aquilo que parece autocuidado para no final vc PRODUZIR melhor, mas não percebe que está adoecendo devagarinho com tanta pressão em acertar.


Quando o tempo real desaparece, pagamos alguém pra fazer tudo por nós… serviços terceirizados, vários profissionais e várias suplementações, além dos tratamentos estéticos para parecer que tem um corpo natural. A conta que nunca fecha - vc precisa ganhar mais, trabalhar mais, para pagar tantos serviços (realidade essa, apenas da classe média para cima, claro.) quanto mais se terceiriza, menos contato temos com aquilo que sustenta o corpo vivo: movimento, chão, matéria, presença, tarefa manual, esforço físico e cotidiano.


Mas calma, precisamos sim de PESSOAS! Porque o capitalismo também tenta te convencer para ser independente. Essa fantasia de que somos seres autossuficientes, só vai criando outra coisa: isolamento, narcisismo, desconexão do outro, da natureza e até de nós mesmos.


Sim, nós precisamos de ajuda. Sim, vamos seguir contratando serviços, trocando trabalhos, pagando e sendo pagos — porque somos seres sociais, interdependentes. Mas o que eu quero que você observe é: a gente deixou de fazer o básico.


E o corpo cobra a conta.


Hoje temos uma geração de idosos que não consegue agachar para pegar algo no chão, que não tem mais equilíbrio, que cai com facilidade. Idosos que precisam de, fisioterapia, reabilitação, cuidadoras — quando podem pagar por isso. Estamos presenciando um aumento das doenças neurológicas como demência, e Alzheimer, vc acha que não tem origem essas doenças? Acha mesmo que é apenas uma má sorte? É estilo de vida. É vida sem chão.


Enquanto muitos povos originários envelheciam com força, flexibilidade e vitalidade — porque vivem próximos da terra, sentam no chão, andam descalços, carregam peso, usam o corpo todos os dias — nós estamos envelhecendo sentados em cadeiras, com a cabeça enfiada no celular.


E se mudar para perto da natureza não resolve, não adianta morar integrado na mata se você passa o dia preso na tela, justificando o vício com a frase: “eu tô trabalhando”.


Hoje eu atendo no consultório pessoas com 30, 40 anos com dores na mão, as articulações dos dedos inflamadas… porque passam horas segurando o celular — e largaram o corpo em ação.

Foi trocado a vida real entre os dedos, por cliques, e agora temos uma dependência crescente da IA. Já pensou no que vai acontecer com a sua saúde mental e seu sistema neurológico quando vc chegar a velhice?


E eu quero abrir um parênteses importante: não é só sobre “se esforçar mais”. Essa conversa que diz que prosperidade é questão de esforço individual é falácia neoliberal. Existem estruturas sociais, históricas e econômicas que definem quem pode viver com mais tempo e liberdade — e quem passa a vida inteira trabalhando para sobreviver. Não é mérito, é política. É classe social. É desigualdade construída e mantida.


Então, no final das contas, eu não estou dizendo para você abandonar tudo e virar um camponês. Eu estou dizendo para você lembrar do básico. Resgatar o corpo que se move, que se envolve com o mundo real, que se cansa, que se suja e que vive.


Às vezes, pra avançar, a gente precisa dar alguns passos atrás. Regredir — não como fracasso, mas como retorno às raízes. Tocar o chão. Cuidar do que é simples. 

E, quem sabe, arrancar uma erva daninha com as próprias mãos — pra lembrar que o corpo é parte do mundo.


 
 
 

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